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12 de mar. de 2012

Página Infeliz


Chico Alencar*
“Somos o que fazemos. Mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.”

(Eduardo Galeano)
O Globo, publicado em 10 de março de 2012

“Brasileiro não tem memória”, diz o senso comum. Entretanto, um povo só avança em civilização conhecendo sua própria história. Esquecer períodos é postura obscurantista e perigosa: quem não se recorda do passado corre o risco de revivê-lo.

Os crimes de perseguição, tortura, assassinato e desaparecimento de presos políticos, cometidos pela ditadura civil-militar implantada com o golpe de 1964, foram hediondos. Ninguém pode ser conivente com eles. Quando se alega que também houve prática “terrorista” por parte daqueles que se insurgiram contra a ditadura, igualando-os aos torturadores, omite-se importante aspecto: enquanto o governo militar agia, sem legitimidade para tanto, sobre pessoas imobilizadas, os que ousavam resistir ao regime pagaram seus atos com prisão, sevícias cruéis, exílio ou morte. Já foram violentamente punidos, sem limites. Seus algozes, por outro lado, até ascenderam na hierarquia do serviço público ou no mundo empresarial!

Não há revanchismo: ninguém quer torturar torturadores, realizar prisões ilegais e negar direito de defesa, mas fazer valer o direito à memória e à justiça. Passado é o que passou e o que, sendo devidamente lido e relido, nos constitui. A máquina de terror montada pela ditadura não pode ser “página infeliz” virada, arrancada ou lida às pressas. Nem “passagem desbotada na memória das nossas novas gerações”, como alerta a denúncia poética de Chico Buarque e Francis Hime.

A sociedade tem o direito irrenunciável de conhecer quem ordenou a tortura e torturou, quem montou a estratégia, quem a financiou, quem praticou atos tão covardes que nem mesmo o regime, embora os tenha organizado “cientificamente” e exportado know how para ditaduras vizinhas, os assumiu.

A consciência democrática não compreenderia a adesão da oficialidade contemporânea a processos espúrios, que só desonraram seus estamentos. Que corporativismo seria aquele que defendesse como seu “patrimônio” práticas que atentaram contra os mais elementares direitos das pessoas? Ou que corroborasse, passadas três décadas, escandalosas mentiras?

O princípio humanista garante que as famílias que não tiveram sequer o direito de sepultar seus entes queridos, ou que viveram o drama indizível de sabê-los nas masmorras, sofrendo todo tipo de agressão, conheçam seus carrascos. Para usar, se desejarem, o direito de acioná-los judicialmente. Os protagonistas da repressão encapuzada devem ter a hombridade de reconhecer que praticaram atrocidades, caminhando assim para o que em direito se chama de “arrependimento eficaz”, como ocorreu na África do Sul.

A Comissão Parlamentar da Verdade, que já tarda, e suas similares nos Legislativos, devem atuar dentro deste viés humanista: com firmeza, serenidade e visão de processo histórico.

*CHICO ALENCAR é deputado federal (PSOL-RJ).

3 de out. de 2011

Visita frustrada e abuso de poder no CDP de Franca

Fui a Franca, na sexta-feira, dia 30 de setembro, convidado oficialmente da Unesp para participar da Semana de Estudos Jurídicos. Fui falar sobre Justiça de Transição e Comissão da Verdade. O bispo Pedro Luiz Stringhini me convidou para ir para lá, também, para visitar o presídio – o CDP de Franca.

Liguei para a Secretaria de Administração Penitenciária pedindo autorização. Falaram que bastava falar com seu diretor Walter Moreto. Que não haveria problema.

Mandei na quinta-feira, 29 de setembro, o texto produzido pelo padre Marco Antonio Gimenes Garcia, Coordenador Diocesano da Pastoral Carcerária, para Walter Moreto (ver documento abaixo).

Chegamos ao presídio, por volta das 15 horas do dia 30, para falar com Valter Moreto e fomos mal recebidos. Nossos celulares foram recolhidos na portaria. Nosso carro – que era o carro da Unesp – foi totalmente revistado. E os documentos pessoais, de identificação, ficaram retidos na portaria.

Subimos para a sala do senhor diretor. Eu me identifiquei, o bispo Pedro Luiz Stringhini se identificou e, muito respeitosamente, o bispo perguntou se o funcionário que tinha se envolvido no episódio estava bem de saúde... O doutor disse que sim.

Dissemos que gostaríamos de visitar o presídio. O diretor disse que não. Que não visitaríamos, porque não tínhamos autorização. Que só poderíamos visitar se tivéssemos autorização do secretário de Administração Penitenciária.

Pedimos o relatório das coisas que aconteceram – dos 10 presidiários transferidos e um incomunicável, que foi para Venceslau. Também não conseguimos. Falei que isso era uma grave afronta à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, à qual presido.

Ele respondeu que pedíssemos autorização em São Paulo. Falou, ainda, que não nos devia satisfação e que sua função era, apenas, nos receber.

O bispo perguntou ao diretor se o padre Marco Antonio poderia permanecer entre os presos. É que o mesmo queria realizar um retiro espiritual no presídio, por quinze dias.

Walter Moreto respondeu, de forma irônica, que o ofício nem chegou e já foi recusado.

E assim saímos de lá.

Para quem conhece o bispo Pedro Luiz Stringhini, sabe do seu comedimento e moderação e de sua forma equilibrada de fazer seu ministério. Para quem conhece o padre Marco Antonio Gimenes Garcia, Coordenador Diocesano da Pastoral Carcerária de Franca, sabe de sua imparcialidade e sua missão pastoral.

Adriano Diogo
Deputado Estadual
3 de outubro de 2011

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Exmo. Sr. Deputado Estadual
Adriano Diogo
D. D. Presidente da Comissão de Direitos Humanos

Vimos informar-lhe sobre um ato ocorrido no C.D.P. de Franca/SP no dia 21 próximo passado, que conta com uns 850 detentos.

Devido ao fato de um presidiário do raio 3, ter ofendido a um funcionário (não sabemos exatamente se fisicamente ou apenas verbalmente), a tropa de choque adentrou ao estabelecimento prisional efetuando uma blitz em todos os oito raios; encapuzados, armados “até os dentes” cachorros e bombas de efeito moral, usando de uma violência e truculência , ao nosso ver desnecessárias, ameaçando, espancando, (alguns presos nos disseram que também os cachorros morderam em alguns presos do raio 3), no qual não pudemos entrar para constatar.

Antecipadamente agradecemos e pedimos às providências que V. Sa. achar convenientes, nos colocando a disposição.

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Pe Marco Antonio Gimenes Garcia

Coordenador Diocesano da Pastoral Carcerária

30 de set. de 2011

CPI do Trabalho Escravo: censurada pelos guardiões governistas

O deputado Carlos Alberto Bezerra, em artigo intitulado “Escravos do Regimento”, publicado recentemente no Diário Oficial do Poder Legislativo, expressou revolta pela impossibilidade de ver instalada de imediato, a sexta Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a apurar casos de trabalho escravo em São Paulo, cujo requerimento é de sua autoria.

Sua excelência atribui a demora no início das apurações à regra regimental da Assembleia que limita a apenas cinco o funcionamento concomitante de CPIs, posição com a qual não concordamos totalmente, conforme argumentação desenvolvida a seguir.

Dividimos com o deputado a angústia frente às evidências de exploração do trabalho escravo e, na qualidade de presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Cidadania, da Participação e das Questões Sociais, encampamos o debate sobre o tema.

A história do funcionamento das CPIs, no Parlamento paulista, na última década, nos dá a exata dimensão do verdadeiro bloqueio do PSDB a toda ação da minoria oposicionista para investigar qualquer fato ou agente que guarde alguma proximidade com o Poder Executivo, comandado pelos tucanos há 20 anos.

Entre os anos de 2002 a 2005, não foi criada sequer uma CPI, muito embora a oposição tenha protocolado 69 requerimentos no período e tenha cobrado, constantemente, em Plenário, um basta a essa situação. Estava em vigor, então, norma regimental que exigia que os requerimentos fossem submetidos a voto. A oposição até conseguia o número regimental de assinaturas e protocolava os requerimentos, mas estes jamais eram levados a voto.
Foi preciso que a questão chegasse ao Supremo Tribunal Federal, através de Ação Direta de Inconstitucionalidade proposta pelo PT, que obteve total êxito, sendo o dispositivo regimental considerado inconstitucional. A partir daí, a oposição passou a ter muita dificuldade em conseguir o número regimental de assinaturas.

Quando a estratégia de não deixar aprovar os requerimentos passou a não funcionar, a bancada governista arquitetou nova forma de evitar investigação à ação governamental. Passaram então, a protocolar inúmeros pedidos de CPIs, destinados a investigar temas diversos das atividades privadas, principalmente as relações de consumo, mas nenhum voltado a apurar ações governamentais.

Durante a 16ª Legislatura, foram criadas 20 CPIs, 19 das quais de iniciativa dos parlamentares da bancada governista. A única CPI proposta pela oposição, que pretendia investigar irregularidades na CDHU, acabou tendo presidente, vice- presidente e relator, todos da base governista; quebrando-se uma praxe de longos anos, de que o autor do requerimento seria eleito presidente da CPI.

Neste período houve CPI que, funcionou por oito meses, apenas elegeu o presidente e nunca mais se reuniu, sendo extinta sem apresentar relatório final e outra que, criada e constituída, sequer chegou a eleger o presidente.

No primeiro dia da atual legislatura, os deputados situacionistas assinaram e protocolaram 12 requerimentos de CPI de uma só vez. Nem bem se iniciara o Governo Alckmin e já havia doze temas a investigar! Nenhum deles, obviamente, relacionado aos órgãos ou agentes do Poder Executivo.

O instituto da Comissão Parlamentar de Inquérito tem caráter de excepcionalidade. Deve ser usado apenas quando as circunstâncias exigirem um instrumento com sua força de coação. O direito de fiscalizar os órgãos e agentes do Estado, papel atribuído às minorias, é, nas palavras do Ministro Celso de Mello, “direito impregnado de estatura constitucional” e que não pode, segundo o mesmo autor, “ser comprometido pelo bloco majoritário.”

Não foi nosso Regimento, portanto, nobre deputado Carlos Bezerra, o grande empecilho à justa pretensão de vossa excelência de investigar as denúncias de trabalho escravo em nosso Estado. Se a bancada governista utilizasse de forma séria o instrumento de investigação, que é a CPI, vossa excelência teria garantida a investigação imediata deste grave problema que envergonha a todos nós.

Adriano Diogo

26 de set. de 2011

Urbanismo de Alto Impacto

Por Adriano Diogo

Grandes impactos urbanísticos ocorrem diariamente nesta cidade. Embora importante e necessária, a obra do monotrilho representa um impacto gigantesco para a população. Ficamos meses e meses – quase anos – discutindo que não deveria ser monotrilho e sim Metrô.

Exaurimos os argumentos, mas não convencemos o governo do Estado que a diferença de custo seria ínfima, para um modal que nasceria totalmente saturado, vista as carências da região.
Estamos diante da reclamação unânime da população diante o corte de 185 árvores da antiga fábrica das Linhas Corrente, no Jardim Independência e, o pior: diante do relatório enviado pelo Metrô para compensação ambiental, assinado pelo Sr. Paulo Sergio Amalfi Meca.

O sentimento é de perda irreparável e a população está indignada. No Parque São Lucas houve uma grande mobilização. Outra corrente defendia a conservação das dependências do antigo clube da fábrica inglesa, com campo de futebol gramado, piscina e salão social. A onda pelo verde na região tem fortes razões. O São Lucas tem irrisórios 2,87 m² de área verde por habitante (a ONU recomenda o mínimo de 12m²/habitante).

Quanto à compensação ambiental, é uma vergonha. Segundo relatório do Metrô, haverá o plantio de 341 mudas de 7 cm de diâmetro na área interna e 852 mudas idênticas, para a área externa. Haverá, também, o plantio de mudas ou obras de requalificação referente a 576 mudas de três cm de diâmetro, incluindo, ainda, a conversão de 2.398 mudas em obras e serviços no entorno. Compensação vergonhosa, mal descrita e pífia.

Por outro lado, o impacto – tanto do corte de árvores, onde será a futura estação, como ao longo da avenida – será gigantesco. Devemos entender que os impactos desses empreendimentos não são mitigados por ações sociais, nem econômicas, nem de convivência.

Do ponto de vista do trânsito, o corredor Anhaia Melo é o campeão dos congestionamentos. Quem precisa utilizá-lo, morre de desespero. Este impacto é calculado? Foram feitas rotas alternativas para diminuir tais congestionamentos?

O Círculo de Trabalhadores Cristãos de Vila Prudente solicitou ao Metrô um canteiro abandonado pela linha verde do Metrô para criar um pequeno centro esportivo... Até hoje, anos depois, a resposta não veio. Várias comunidades reivindicam a criação de pequenos parques, como o da Fazenda da Juta, como compensação das áreas do Metrô. Novamente, sem resposta... O maior silêncio.

Conviveremos com a obra do monotrilho por mais de cinco anos. Quais os impactos e suas consequências? Quais modificações ocorrerão na vida das pessoas para o monotrilho chegar até a Cidade Tiradentes? E, quando a população acessar esse meio de transporte, quem vai conseguir embarcar no caminho? Perguntas e mais perguntas... Sem respostas.

* Publicado na Folha da Vila Prudente 23/09/11

26 de ago. de 2011

“Belíndia” – ou a fronteira entre a Bélgica e a Índia – está pertinho de todos nós...


Publicado no ABCD Maior

Iluminação, transporte, rede de esgoto, coleta de lixo, saúde, educação e segurança são alguns dos serviços públicos deficitários nas regiões periféricas da cidade de São Paulo. Nada de efetivo é feito para sanar os problemas das regiões fronteiriças com outros municípios, como Diadema, Santo André, São Caetano, Mauá e São Bernardo do Campo.
Falta um pouco de tudo à população dessas regiões. A carência e a dependência levam fluxos de pessoas, famílias inteiras a depender – de forma quase absoluta – de serviços de outros municípios. No que se refere à dependência da população pobre da periferia da Capital, cabe questionar o quão desesperadora é a situação de viver na fronteira, em busca de civilização...
São mais de cinco mil moradores de bairros paulistanos como Jardim Ângela, Guacuri e Pedreira que procuram Unidades Básicas de Saúde e os hospitais públicos municipais de Diadema. Ou melhor, quase 10% do atendimento da rede pública municipal de saúde em Diadema são destinados a moradores destes bairros da Zona Sul de São Paulo.
Moradores do Jardim Monte Líbano, na Capital, vivem situação parecida. Preferem usar as linhas que vão para o Centro de Diadema e procuram quadras de esportes da cidade do ABCD. Tudo isto porque a carência de infra- estrutura nessas regiões propicia um processo de segregação social e espacial.
Propicia, também, uma segregação política, porque essas pessoas se reúnem e se relacionam com políticos de outros municípios e possuem, até mesmo, título de eleitor da cidade onde não moram...
Situação parecida ocorre na Zona Leste da cidade, onde 25 mil moradores do Parque das Flores utilizam serviços médicos, escolas e transporte público de Mauá. Só para se ter uma ideia, um grupo de moradores do Parque das Flores formou uma comissão para estender o Programa de Saúde da Família. Eles reivindicam à Prefeitura de Mauá que o programa fosse estendido ao bairro vizinho.
Trabalhar e consumir em cidades limítrofes também é prática de bairros que não oferecem a mínima infraestrutura. Moradores de Vila Bela e Vila Alpina, na Zona Leste, por exemplo, consomem e trabalham na vizinha São Caetano. As opções no mercado de trabalho – em especial nas áreas de call centers, construção civil, metalúrgica, indústria em geral e serviços – contribuem para aglutinar essas pessoas no município vizinho.
São pessoas que vivem em condições expulsórias. Elas não têm condições financeiras de habitar no município vizinho, com aluguéis mais caros, e muitas são segregadas. Outra evidência nessa região, que já ocorre hoje, vai se intensificar ainda mais durante a Copa do Mundo. Será uma limpeza étnica, que visa expulsar todos os pobres da periferia...
Adriano Diogo

12 de ago. de 2011

Mais uma atitude vergonhosa de Kassab: a venda da Praça Alfredo Di Cunto!

A Praça das Flores Alfredo Di Cunto, na Mooca, pode acabar de um momento para o outro. Isto por que a praça é uma das vinte áreas que o prefeito Gilberto Kassab pretende ceder às construtoras em troca da construção de creches. Assim como a população da Mooca, estou igualmente indignado com a decisão do prefeito.

A Mooca é um bairro-foco das construtoras e, também, uma reconhecida ilha de calor da cidade devido à carência de áreas verdes e permeáveis. Acabar com este espaço é, mais uma vez, abrir mão do verde em prol do concreto.

Leia Também:
A Praça Di Cunto precisa ser preservada

Muito mais do que filho da Mooca, tenho uma relação de carinho com a Praça das Flores Alfredo Di Cunto. O espaço em questão era uma área depreciada, quase um depósito de entulho. Na época que eu era Secretário do Verde e do Meio Ambiente, no governo Marta Suplicy, transformamos aquele espaço abandonado em uma praça, com projeto de cunho social e educativo.

Na praça formou-se uma horta comunitária, onde a população mais carente podia aprender sobre plantio e comercializar as colheitas. Na época, Hans Dieter Temp coordenou o Programa de Agricultura Urbana de São Paulo, implantada pela Secretaria do Verde.

E a praça transformou-se na primeira horta urbana do programa que, além de combater a fome e ser veículo para a inclusão social, funciona como estratégia de recuperação ambiental de terrenos vazios.

E, além da importância da preservação do espaço, no âmbito ecológico, esta primeira horta tem, para mim, outro aspecto, igualmente importante: o aspecto sentimental. Batizamos a praça com o nome de Alfredo Di Cunto, em homenagem à família que chegou ao Brasil e que, com muito trabalho e determinação, Donato Di Cunto fundou, na rua Visconde de Parnaíba, em São Paulo, uma das primeiras padarias da cidade. Eram anos que antecediam a Proclamação da Republica...

Anos depois, em 1935, os irmãos Di Cunto: Vicente, Lorenzo, Roberto e Alfredo (filhos de Donato, já falecido na ocasião) reacenderam o forno, iniciando-se, assim, na atividade de padeiros, sendo uma das padarias, localizadas na Mooca.

Daí que, acabar com a praça é, também, deixar de prestar a homenagem a esta importante família de imigrantes, que é um marco da Mooca.

Cabe à Prefeitura de São Paulo, conquistar novas áreas verdes para a cidade e não destruí-las e leiloá-las para empreiteiras...

31 de ago. de 2010

Os Indiferentes

Antonio Gramsci - 11 de Fevereiro de 1917

Via PCB.org

Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar.

A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso.

Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis.

Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.

A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.

Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.

Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.

27 de ago. de 2010

Descanse em Paz

por Carta Maior

Foi no dia 5 de fevereiro de 1998 que o ex-primeiro-ministro inglês, Tony Blair, anunciou, em Washington, junto com o presidente Bill Clinton, a decisão de convocar uma reunião internacional para discutir e atualizar a social-democracia, criando um movimento que foi chamado de "terceira via" ou “governança progressiva”. Naquele momento, brilhava a estrela do novo líder inglês, que recém havia sido empossado e conseguiu reunir, sucessivamente, em Florença, Washington e Londres, Bill Clinton, Lionel Jospin, Gerhard Schröder, Massimo D´Alema, Fernando H. Cardoso, Ricardo Lagos, entre outros governantes e intelectuais ligados de uma forma ou outra à social-democracia européia, ou ao partido democrata norte-americano.

O projeto comum era construir um novo programa que adequasse a velha social-democracia às novas idéias e políticas neoliberais, hegemônicas nas últimas décadas do século XX. O resultado foi uma geléia ideológica, com propostas extremamente vagas e imprecisas, que mal encobriam o seu núcleo duro voltado para a abertura, desregulação e desestatização das economias nacionais, e para um "prologement vaguement social de la révolution thatcheriste", como caracterizou na época, a revista francesa, Nouvelle Observateur.

Goste-se ou não, as idéias e os partidos socialistas e social-democratas deram uma contribuição decisiva à história do século XX, em particular à criação do “estado do bem-estar social”, depois da II Guerra Mundial. Mas na década de 80, a social-democracia perdeu fôlego político, e acabou perdendo a sua própria identidade ideológica, asfixiada pela grande “restauração” liberal conservadora, de Margerth Thatcher e Ronald Reagan. Isto aconteceu na Espanha, de Felipe Gonzalez, na França, de François Mitterand, na Itália, de Bettino Craxi, e também na Grécia, de Andreas Papandreu. Nos anos 90, entretanto, este movimento adquiriu outra densidade e importância, com a vitória democrata, de Bill Clinton, nos EUA, e do trabalhismo de Tony Blair, na Inglaterra.

Na América Latina, a história foi um pouco diferente, porque as novas políticas neoliberais apareceram – nos anos 80 - associadas à renegociação da dívida externa do continente, como se fossem apenas um problema de política econômica. E foi só no Chile e no Brasil, que a proposta da “terceira via” teve uma repercussão importante, durante a década de 90. No caso do Chile, com a formação da aliança entre socialistas e democrata-cristãos, e, em particular, durante o governo de Ricardo Lagos (1990-1996), que aderiu pessoalmente ao projeto liderado pelos anglo-saxões. E, no caso do Brasil, com a formação do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), e com a participação ativa do presidente Fernando H. Cardoso (1995-2002), na formulação das idéias e nas reuniões do movimento, ao lado de Tony Blair e Bill Clinton.

A “terceira via” teve uma vida muito curta. Talvez, por causa da superficialidade e artificialidade das suas idéias, talvez, porque seus líderes mais importantes acabaram sendo derrotadas nas urnas, ou passaram para a história como grandes fracassos ou blefes político-ideológicos. Como no caso do iniciador do movimento, o ex-primeiro-ministro Tony Blair, que foi afastado da liderança trabalhista em 2007, e se transformou no inimigo numero um da imprensa e da maioria da opinião publica inglesa, sob acusação de ter mentido para justificar a entrada do seu país na Guerra do Iraque, além de ter acobertado casos de tortura, por parte de suas tropas.

Tony Blair foi substituído por Gordon Brown, outro ideólogo da “terceira via” que acabou sofrendo uma das derrotas eleitorais mais arrasadoras da história do trabalhismo inglês. Bill Clinton também não conseguiu fazer seu sucessor, e passou para a história, como símbolo do expansionismo imperial americano, da década de 1990, a despeito de sua retórica “globalista” e democrática. Os demais participantes europeus do movimento também tiveram finais inglórios, como foi o caso de Lionel Jospin, Massimo D´Alema e Gerhard Schröder, e hoje ninguém mais fala ou lembra, na Europa ou nos Estados Unidos, do projeto da “terceira via”. Mas este factóide anglo-americano teve uma sobrevida, e só será enterrado definitivamente, em 2010, na América Latina. Primeiro, no Chile, depois da derrota eleitoral da “Concertacion” de Ricardo Lagos. E depois, no Brasil, com a provável derrota do partido social-democrata, de Fernando H. Cardoso, nas eleições presidências deste ano. Nos dois casos, o que mais chama a atenção não é a derrota em si mesma, é a anorexia ideológica dos dois últimos herdeiros da “terceira via”. Não se trata de incompetência pessoal, nem de um problema de imagem, se trata do colapso final de um projeto político-ideológico eclético e anódino que acabou de maneira inglória: o projeto do neoliberalismo social-democrata. Que repouse em paz !