8 de jul de 2011

Lições do deslizamento no Morro dos Macacos em São Paulo

Caros colegas,

Permitam-me aproveitar a ocasião para trocar algumas idéias sobre trabalhos em áreas de risco.
Como os amigos devem ter visto pelo noticiário ontem, 07.07.2011, ocorreu um grande deslizamento, com duas vítimas fatais, em área de risco situada no Morro dos Macacos, Cidade Ademar, zona Sul de São Paulo (domínio de mar de morros em direção à escarpa da Serra do Mar). Esta área foi corretamente classificada pelo IPT como de alto e muito alto graus de risco.
Chamo a atenção para alguns erros graves cometidos nas decisões tomadas para a solução dos problemas e para a própria consolidação geotécnica dessa área. As fotos ajudam a entendê-los.

1) Trata-se geomorfologicamente de uma clássica grota, uma cabeceira de drenagem, feição que indica uma acelerada frente natural de evolução do relevo, área de natural concentração de águas superficiais e subterrâneas. É a própria Natureza nos alertando a plena voz: “bandeira vermelha, nem cheguem perto, zona de perigo”. Ou seja, área “non edificandi” por excelência. Comum palco de ocupação por invasão ou loteamentos irregulares. Mas também, em alguns casos, por ocupações totalmente regularizadas perante a lei.

2) Em uma situação dessas de forma alguma a linha de casas na crista do talude poderia ser mantida. As casas deveriam ter sido desocupadas, o talude abatido, a drenagem instalada e tudo ser paulatinamente transformado em um denso bosque florestado;

3) Da mesma forma em toda a grota: retirada de todas as habitações, limpeza superficial de materiais soltos, drenagem e reflorestamento intenso. Era para tudo se transformar em um belo parque público.

4) Quanto à obra: provavelmente atendendo-se interesses comerciais decidiu-se pela manutenção das ocupações de crista e contenção geotécnica via terraplenagem intensa e solo grampeado com tela argamassada.

5) Adicionalmente a esse erro de concepção de origem, desastrosamente procedeu-se de uma só vez toda a terraplenagem, o que provocou uma maior desestabilização do conjunto (já que a linha de crista foi mantida), para só então serem executados os serviços de estabilização geotécnica. O correto é proceder a terraplenagem em painéis e degraus gradativos e só continuá-la após esses painéis e degraus terem sido consolidados.

6) Isso nos revela um ponto fraco das ações de consolidação geotécnica de áreas de risco. Como essas operações transformaram-se em um potencial “bom negócio”, delas estão participando grandes empreiteiras sem nenhum experiência em obras urbanas de menor porte e maior risco. O que nos alerta da importância de não pararmos nossos trabalhos apenas na cartografia e indicação dos graus de risco, precisamos avançar mais um pouco e irmos até a indicação do melhor destino para a área, e se for o caso de consolidá-la geotecnicamente, até a concepção das obras e serviços de estabilização que devam ser executados. E após, o acompanhamento técnico dessas atividades.

Abraços,
Álvaro Rodrigues

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