13 de dez de 2010

ANÁLISE: Liderança e nova classe média

Mudança na estrutura social não será efetiva se, além do consumo, não incorporar avanços significativos na educação, a maior barreira de acesso ao Primeiro Mundo
Kenneth Serbin*

O sucesso do lulismo deve-se ao progresso econômico do Brasil. Na gestão do presidente Lula, o Brasil tornou-se uma nação de classe média. De acordo com estudos estatísticos, em 2008, 52% da população – quase 100 milhões de pessoas – viviam em famílias com renda mensal entre R$ 1.115 e R$ 4.807, mais que os 44% de 2002, ano em que Lula se elegeu pela primeira vez.

Mais do que qualquer outra coisa, este grande senso de bem-estar no Brasil impulsionou Lula a índices históricos de aceitação nas pesquisas de opinião pública e assegurou a eleição da tecnocrata Dilma Rousseff como sua sucessora.

A retórica política no Brasil cria uma falsa dicotomia entre o PSDB e o PT. O ponto crucial é que a estabilização econômica começou sob o governo tucano de Fernando Henrique Cardoso – especialmente com o fim da inflação e o Plano Real – e estabeleceu as bases para o crescimento econômico e a expansão da classe média.

Lula sustentou rigorosamente a política fiscal por meio da produção de superávits nas contas federais. Neste mesmo período do ano, em 2009, a imprensa noticiou que, inacreditavelmente, o governo brasileiro havia se tornado o quarto maior credor do governo americano, investindo US$ 154 bilhões em títulos do Tesouro Nacional. Portanto, o governo de Lula foi extremamente conservador em termos econômicos.

Da mesma forma, os programas sociais do governo Lula se expandiram a partir de ideias desenvolvidas no governo FHC. Graças a esses programas, indicadores-chave, como mortalidade infantil, melhoraram substancialmente. Em 1990, eram 52 mortes por mil nascimentos no Brasil. Este ano, o número caiu para menos de 20 mortes por mil nascimentos, um decréscimo de mais de 60%.

Assim, a emergência da classe média é o resultado não só de oito anos das políticas de Lula, mas de 16 anos de continuidade entre as gestões do PSDB e PT. Isso significa que toda uma geração de brasileiros está crescendo sem ter conhecido os tempos da alta inflação, temporariamente sanada com vários programas econômicos e várias trocas da moeda. Jovens brasileiros estão testemunhando uma sociedade de abundância sem precedentes. A fome ainda é um problema, mas já se veem sinais de que os maiores, nos próximos anos, podem ser a obesidade e o diabetes – dois fenômenos associados à maturidade do capitalismo em países como os Estados Unidos, onde muitas pessoas são indulgentes com a alimentação e não se exercitam regularmente.

O Brasil também está se tornando um país de classe média de outras maneiras. A presidente eleita Dilma Rousseff já tinha um iPad antes de o produto aportar oficialmente no Brasil. Ela simboliza a astúcia digital dos brasileiros. Hoje, mesmo pessoas de comunidades de baixa renda podem se dar ao luxo de ter computadores e acesso à internet. O Brasil tem uma enorme presença na blogosfera. Telefones celulares também estão em toda parte.

O Brasil continua a exportar quantidades enormes de alimentos – é uma vocação histórica –, mas também está produzindo carros, aviões, programas de computador e códigos do genoma. A economia brasileira se diversificou de maneira fantástica, com novos tipos de ocupação inimagináveis há algumas décadas e preparando o país para uma competição cada vez mais intensa na economia global.

O progresso político do Brasil não pode ser subestimado. De uma ditadura de 21 anos, que deixou o poder em 1985, para uma nação onde oponentes do regime militar, como Fernando Henrique Cardoso, Lula e agora a ex-revolucionária Dilma Rousseff, tomaram o poder em eleições legítimas, com transições pacíficas e sem interferência militar, o Brasil demonstrou cada vez mais sua maturidade política e seu compromisso com a democracia.

Estes fatores políticos fortalecem o progresso econômico e a imagem do Brasil como uma nação estável, atrativa a investidores e capaz de exercer liderança regional e global. Em suma, o Brasil pode não ser mais classificado como um país de Terceiro Mundo. Ele agora se encontra em uma classe de países como China e Índia, cuja proeza econômica e geopolítica, além do crescimento da classe média, os torna próximos do status de países de Primeiro Mundo.

Jogos e educação

O reconhecimento do status do Brasil vem com duas joias de prestígio internacional: sediar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Os Jogos Olímpicos não produzem um poder geopolítico. Ao contrário, eles são a projeção de um poder já existente ou, em última instância, a intenção de concretizá-lo. De qualquer forma, os esforços do Brasil em garantir os jogos revelam o que o país compreende, como fez a China com as Olimpíadas de Pequim em 2008: que exibir suas competências é importante para construir uma imagem internacional e chamar a atenção do mundo.

Muitos brasileiros e analistas estrangeiros gostariam de saber se o potencial do Brasil é apenas mais uma falsa esperança, uma outra versão do “país do futuro”, onde o futuro nunca chega, de fato.

Na verdade, ainda há muito a ser feito até que o Brasil se torne plenamente desenvolvido, uma nação de Primeiro Mundo. Embora as taxas de mortalidade infantil tenham caído drasticamente, ainda estão distantes dos índices de países como Chile, Colômbia, México e Argentina. A taxa de Cuba é de apenas 5,25 mortes por mil nascimentos. Em muitos aspectos, o Brasil ainda é um retardatário em termos de equanimidade socioeconômica.

Dilma e autoridades estaduais e municipais precisarão garantir a segurança nos locais onde será realizada a Copa do Mundo. Eles precisarão focar, em especial, na solução do problema da segurança pública no Rio de Janeiro, cidade-sede das Olimpíadas.

Os líderes brasileiros encontrarão uma forma de encobrir os problemas de segurança fazendo acordos com criminosos, “tudo para inglês ver”? Ou empenharão esforços para reformar a polícia e enfrentar de verdade os problemas do tráfico e do consumo de drogas?

Como primeira mulher a ser presidente do Brasil, Dilma pode catalisar a melhoria da situação da mulher, chamando a atenção nacional para suas questões e encorajando o desenvolvimento de novos programas gerenciados tanto pelo governo quanto pela sociedade civil.

As Olimpíadas e os programas de esporte no Brasil são um caso a considerar. A diferença entre Brasil, de um lado, e Estados Unidos, China e até um pequeno país como Cuba, de outro, é que estes investem pesado em programas de esporte voltados para a juventude, incluindo neles ambos os sexos. Estes países sempre levam para casa um grande número de medalhas. O Brasil não. Será que o país conseguirá aumentar significativamente seu desempenho para estar entre os maiores medalhistas, até 2016?

O Brasil deveria ficar atento aos Estados Unidos no futebol, por exemplo, porque ligas de futebol adolescentes despontaram nos Estados Unidos, nas últimas décadas. O interior dos Estados Unidos é povoado por um número gigantesco de “mães do futebol”, que levam as crianças para treinos e jogos nas vans e carros utilitários da família. O Brasil não tem este tipo de programa para suas garotas.

Para 2016, o Brasil terá muito mais a fazer, além de construir estádios, manter os traficantes de drogas dentro dos limites das favelas e limpar as ruas. Será necessário desenvolver um maciço programa de investimentos em esportes juvenis para ambos os sexos e crianças de todas as classes sociais, além de garantir que tais programas sobrevivam a longo prazo.

Educação é talvez a maior barreira para o Brasil entrar no Primeiro Mundo. Aqui, mais uma vez, Dilma pode ser uma boa influência e promover melhorias. Lula foi a expressão do pobre brasileiro que ascendeu socialmente. Subiu na vida. Ele é o retrato dos mais novos integrantes da classe média. Lula tem orgulho de sua origem operária. Ele cresceu com as adversidades, na “escola da vida”. Mas junto com isso vem um certo e pouco saudável desdém pela educação formal e por assuntos de cunho intelectual. Lula não é fã de leitura e este foi um mau exemplo para uma nação onde algumas pessoas pensam que professores, inclusive universitários, são “vagabundos”.

Os salários de professores universitários aumentaram, de fato, mas professores de escolas públicas e primárias ainda recebem salários miseráveis, além de, com frequência, trabalharem sob condições deploráveis. Lula e a imprensa gostam de especular acerca de suas futuras atividades e posições de liderança. Em nenhum lugar se menciona que Lula talvez volte à escola.
Talvez Lula pudesse aproveitar a “deixa” de Bill Gates, que abandonou a faculdade para fazer fortuna mas agora aconselha os jovens a concluir seus estudos. Gates, na verdade, depois aderiu a cursos de graduação on-line para obter vários diplomas universitários.

Neste aspecto a presidente eleita Dilma Rousseff é o oposto de Lula. Ela cresceu em uma família de classe média alta e teve a melhor educação que poderia ter tido. Ela gosta de ter consigo três livros, todo o tempo, e tem um prazer evidente por questões intelectuais. Quanto a isso ela repetirá pelo menos uma das características exibidas por Fernando Henrique, um renomado professor universitário.

Dilma representa aquilo a que o Brasil pode aspirar com uma liderança apropriada. A dela deveria ser única, e não uma repetição de Lula. Ela é o espelho de uma classe média em vias de ser consolidada.

Dilma pode militar a favor de uma melhoria no sistema público de educação no Brasil, que precisa urgentemente de melhores instalações físicas, professores mais bem treinados e mais bem pagos e administradores preparados para garantir que todos os brasileiros tenham condições e habilidades acadêmicas fundamentais para competir em uma economia global.

A importante liderança de Dilma na educação ajudaria a expandir as oportunidades que vêm com o status de um país de classe média. Apoiar a educação contribuiria consideravelmente, inclusive, para ajudar a resolver os problemas de segurança pública, uso de drogas e iniquidades de gênero.

*Kenneth Serbin é chefe do Departamento de História da Universidade de San Diego, onde leciona história do Brasil. Foi presidente da Brazilian Studies Association entre 2006 e 2008.

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