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7 de fev. de 2011

A verdadeira preocupação dos EUA não é o islã, é a independência

Por Viomundo

“O mundo árabe em chamas”, a rede Al-Jazeera noticiou semana passada, enquanto em toda a região os aliados ocidentais “rapidamente perdem influência”. A onda de choque foi posta em movimento pelo levante dramático na Tunísia, que derrubou ditador apoiado pelo Ocidente, com reverberações sobretudo no Egito, onde manifestantes desafiam a polícia brutal de outro ditador.

Observadores já compararam ao fim do domínio soviético em 1989, mas há diferenças importantes. Diferença crucial, não há Mikhail Gorbachev entre as grandes potências que apoiam ditadores árabes. Em vez disso, Washington e seus aliados mantêm o bem fixado princípio segundo o qual a democracia só interessa quando atende a determinados objetivos estratégicos e econômicos: bem vinda em território inimigo (até certo ponto), mas nunca no quintal dos EUA, por favor, a menos que chegue devidamente domada.

Num ponto, a comparação com 1989 tem alguma validade: na Romenia, onde Washington manteve o apoio a Nicolae Ceausescu, o mais vicioso de todos os ditadores do leste europeu, até que aquele apoio tornou-se insustentável. Então Washington passou a pregar a derrubada daquela ditadura, e o passado foi apagado. Esse é o padrão: Ferdinand Marcos, Jean-Claude Duvalier, Chun Doo-hwan, Suharto e muitos outros gângsteres úteis. Pode estar em andamento, no caso de Hosni Mubarak, além dos esforços de rotina para assegurar que o regime sucessor não tente qualquer passo muito afastado da trilha demarcada e aprovada. A esperança de hoje parece ser o general Suleiman, homem de Mubarak, que acaba de ser nomeado vice-presidente. Suleiman foi chefe dos serviços de segurança por muito tempo; é odiado pelos manifestantes, quase tanto quanto o próprio ditador.

Jornais e programas de comentários (e futricas) não se cansam de repetir que o medo que os radicais islâmicos inspiram justifica (alguma, relutante) oposição à democracia, explicável por motivos de puro pragmatismo. Embora não seja completamente falsa, é formulação que mais desencaminha do que esclarece. A verdadeira ameaça, do ponto de vista dos EUA, sempre foi a independência. EUA e aliados têm apoiado vários radicais islâmicos, às vezes, para evitar a ameaça do nacionalismo secular.

Exemplo conhecido é a Arábia Saudita, centro ideológico e lar natal do Islã radical (e do terrorismo islâmico). Outro exemplo, numa lista longa, é Zia ul-Haq, o mais brutal dos ditadores, paquistanês, e favorito do presidente Reagan, que conduziu programa de islamização radical (com financiamento dos sauditas).

“O argumento tradicional apresentado a todo o mundo árabe é que nada há de errado, tudo perfeitamente sob controle”, diz Marwan Muasher, ex-funcionário do governo da Jordânia e atualmente diretor do Middle East Research for the Carnegie Endowment. “Por essa linha de pensamento, grupos dos dois lados argumentam sempre que os respectivos opositores que exigem reformas exageram os problemas das reais condições em campo”.

Assim sendo, basta deixar de fora a opinião pública. A doutrina é muito ampla e aplica-se a praticamente todo o mundo, assim como ao território nacional dos EUA. Serve para todos. Caso haja agitação social, pode acontecer de ser preciso introduzir alterações táticas, mas sempre com vistas a continuar mantendo pleno controle.

O vibrante movimento democrático na Tunísia visou diretamente ao “estado policial, de cidadãos sem liberdade de expressão ou de associação, com graves problemas de atentados a direitos humanos”, chefiado por um ditador cuja família era odiada, considerada corrupta e venal. Foi o que disse o embaixador dos EUA Robert Godec, em julho de 2009 – como se lê em telegrama publicado por WikiLeaks.

Por isso, alguns observaram que os documentos publicados por WikiLeaks “criam entre os norte-americanos o sentimento reconfortador de que seus diplomatas não dormem no ponto” –, e fato é que os telegramas vazados servem de apoio tão perfeito para as políticas dos EUA, que parece que o próprio Obama ordenou, em pessoa, os vazamentos (como escreveu Jacob Heilbrunn em The National Interest).

“Os EUA deveriam condecorar Assange”, diz manchete do Financial Times, e Gideon Rachman escreve: “A política exterior dos EUA aparece ali como organismo construído de princípios, inteligente e pragmática (…) a posição pública que os EUA assumiram em cada determinada questão é também, quase sempre, a posição privada”.

Desse ponto de vista, os vazamentos de WikiLeaks poriam abaixo os “teóricos da conspiração” que questionam os nobres motivos que movem as ações e declarações de Washington.

O telegrama assinado por Godec realmente permite essas conclusões – desde que não se leia mais nada, além do próprio telegrama. Se se lê, como diz Stephen Zunes, analista de política exterior de Foreign Policy in Focus, logo se vê que, com a informação que Godec lhe forneceu, Washington logo enviou $12 milhões de dólares em ajuda militar para a Tunísia. De fato, a Tunísia foi uma, dentre cinco beneficiários estrangeiros dessa ajuda militar: Israel (rotina); dois ditadores no Oriente Médio, no Egito e na Jordânia; e a Colômbia (país que ocupa o último lugar no ranking do respeito aos direitos humanos e beneficiário da maior ajuda militar, pelos EUA, no hemisfério).

A prova A de Heilbrunn é o apoio que os árabes dão às políticas dos EUA contra o Irã, revelado nos telegramas publicados por WikiLeaks. Rachman também usa esse exemplo, e praticamente toda a mídia, saudando essas estimulantes descobertas. As reações ilustram o quanto a cultura letrada nos EUA despreza a democracia.

Não se considera, até aí, a opinião das populações, naquelas ditaduras – opinião que, agora, brada nas ruas e todos ouvem. Segundo pesquisas divulgadas pela Brookings Institution em agosto, alguns árabes concordam com Washington e muitos jornalistas e jornais ocidentais, e entendem que o Irã seja ameaça: 10%. Outros consideram os EUA e Israel como ameaça mais grave: 77%, EUA; 88%, Israel.

A opinião dos árabes é tão hostil às políticas de Washington, que uma maioria (57%) entende que a segurança regional estaria mais bem atendida se o Irã tivesse armas atômicas. Mas… “nada de errado, tudo sob controle” (como Muasher apresenta a fantasia-delírio dominante). Os ditadores nos apoiam. As populações sobre as quais se impuseram podem ser ignoradas – a menos que rompam suas cadeias, caso no qual, então, é preciso promover alguns ajustes na política.

Outros vazamentos também parecem confirmar avaliações entusiásticas sobre a nobreza das intenções e atitudes de Washington. Em julho de 2009, Hugo Llorens, embaixador dos EUA em Honduras, informou Washington sobre pesquisa técnica conduzida pela própria embaixada sobre “questões legais e constitucionais que cercaram o afastamento, dia 28 de junho, do presidente Manuel ‘Mel’ Zelaya”.

A embaixada concluiu que “De qualquer modo, sejam quais forem os argumentos que haja contra Zelaya, a remoção do presidente pelos militares foi claramente ilegal e a posse de Micheletti como “presidente interino” foi totalmente ilegítima” [1]. Admirável! Exceto pelo detalhe de o presidente Obama, na contramão de toda a América Latina e Europa, ter apoiado o governo golpista e acobertado todas as atrocidades subsequentes.

O vazamento talvez mais notável, de quantos se leram em WikiLeaks, tem a ver com o Paquistão [2], analisado por Fred Branfman, analista de política externa em Truthdig [3].

Os telegramas revelam que a embaixada dos EUA sabia perfeitamente que a guerra de Washington no Afeganistão e Paquistão não só intensifica um sempre crescente antiamericanismo na região, mas, também “cria o risco de desestabilizar o estado no Paquistão”, o que faz aumentar a ameaça do pesadelo de todos os pesadelos: que armas atômicas caiam em mãos de terroristas islâmicos.

Mais uma vez, são revelações que “criam entre os norte-americanos o sentimento reconfortador de que seus diplomatas não dormem no ponto” (palavras de Heilbrunn [4])… enquanto Washington marcha em passo acelerado rumo ao desastre.

NOTAS

[1] Íntegra do telegrama, em português, em http://www.revistaforum.com.br/blog/2010/11/29/wikileaks-leia-o-telegrama-do-embaixador-dos-eua-sobre-golpe-em-honduras/
[2] O telegrama, em inglês, está em http://www.guardian.co.uk/world/us-embassy-cables-documents/226531
[3] O artigo, em inglês, está em http://www.guardian.co.uk/world/us-embassy-cables-documents/226531
[4] Em http://nationalinterest.org/node/4487 (em inglês).

4 de fev. de 2011

A revolução é online e offline

Por Carta Capital


A revolução popular em curso no Egito já tem um efeito colateral curioso: a trincheira aberta na discussão sobre o uso da internet – mais especificamente das redes sociais – e dos telefones celulares nos protestos. De um lado, defensores da ideia de que esta é uma “revolução de Facebook e Twitter”. Do outro, as opiniões de que a internet não leva as pessoas às ruas e de que celulares não derrubam governos.
O primeiro ponto de vista ignora que o acesso à web no Egito ainda é relativamente baixo – cerca de 20% da população conectados -, com um número ainda menor para redes sociais. O número de usuários do Facebook fica perto de 5,2 milhões de pessoas, menor, por exemplo, que o número de seguidores de Barack Obama no Twitter. Da população geral, os conectados à rede de Mark Zuckerberg são 6,46%.

Na questão dos celulares, o número de cidadãos conectados não é tão importante quanto a limitação do serviço. Uma das primeiras medidas do governo do ditador Hosni Mubarak quando notícias dos protestos começaram a se espalhar foi cortar parte dos serviços de telefonia móvel. Com uso restrito, os telefones de pouco serviram para organizar mais protestos, convocar mais manifestantes ou mesmo para a imprensa.

Além das restrições físicas, as técnicas de contra-informação também limitam a possibilidade de protesto eletrônico. Um exemplo: o serviço da Vodafone, operadora de telefonia móvel com 26 milhões de clientes no país, enviou mensagens de texto (SMSs) favoráveis ao governo durante a crise atual.

A operadora emitiu um comunicado esclarecendo não ter culpa no envio das mensagens, já que a Lei de Telecomunicações egípcia confere à agência regulatória do país o direito de enviar os SMSs em caso de emergência. Mas, enquanto se exime de responsabilidade na nota oficial, a Vodafone mantém sua marca como patrocinadora do portal governamental egípcio.


Agora, ao outro lado da moeda. Apesar das limitações claras, o ceticismo total em relação à força da internet nos protestos também é descabido. Há quem apele para comparação com revoluções e protestos anteriores, algo como “não havia internet em 1917 e os russos fizeram a revolução”. Do ponto de vista objetivo, a frase é perfeita. Mas o sentido dado a ela é distorcido.

Ainda utilizando os números de acesso ao Facebook no Egito, 50% dos perfis no país pertencem a jovens entre 18 e 24 anos. Abrindo a faixa de idade para até 34 anos, tem-se 78% dos usuários da rede em território egípcio. Ainda que com alcance restrito, o Facebook é uma ferramenta de mobilização e contato com o mundo para uma parcela importante da população.

Tecnologia e redes sociais têm, no entanto, funções bem mais relevantes do que apenas mobilizar e chamar às ruas. A transmissão de informações em formatos diversos é parte deste processo. Entrando na onda de memórias de revoltas passadas, é interessante comparar o que ocorre na Praça Tahrir, no Cairo, ao que se passou na Praça Tian’anmen, Pequim, em 1989.

Enquanto os manifestantes se concentravam na praça chinesa exigindo a abertura democrática do país, paramilitares passeavam pelos hotéis e prédios das redondezas confiscando as pesadas câmeras de vídeo e os igualmente pesados equipamentos de transmissão. Em pouco tempo, o registro de imagens da praça foi quase totalmente restrito – exceção ao cinegrafista da agência France Presse que conseguiu esconder uma fita contendo a clássica cena do rebelde enfrentando os tanques. No conforto de um “apagão” jornalístico, soldados e paramilitares invadiram a praça em um dos massacres mais relembrados da história recente.

Voltando ao Cairo, 2011. Telefones celulares com câmera, gravadores e câmeras digitais ultra-compactas permitem registro permanente de imagens e sua transmissão pela internet (com repercussão imediata nas redes sociais). Se não impede totalmente a violência, tal cobertura “independente” constrange o governo Mubarak a evitar um massacre nos moldes de Tian’anmen. A Al Jazeera, emissora de TV do Catar, transmite, no momento em que escrevo, ao vivo da praça Tahrir. O sinal do site oficial caiu, mas a página da emissora no Facebook resolve esse problema, com o vídeo direto.

Repórteres também conseguem maior segurança com as tecnologias avançadas. O correspondente da Rede Globo, Ari Peixoto, e seu cinegrafista desistiram da câmera convencional quando a batalha na praça ficou mais intensa. As imagens exibidas nos principais jornais da emissora nesta quarta-feira 02 foram feitas com um mero celular. Peixoto era só mais um cidadão comum, ao lado de um amigo, filmando o evento histórico com seu aparelho de telefonia móvel. E ninguém os importunou.

Classificar os acontecimentos no Egito de Revolução do Facebook ou atacar ferozmente esta nomenclatura é pouco produtivo. Tratar a internet como algo que existe de forma separada, alheia à “vida real”, é a maneira mais eficaz de chegar a lugar nenhum neste debate. Assim como fica evidente o reforço dado pela conexão à rede e às mídias sociais, é prudente combater a ingenuidade e o sentimento de que uma “hashtag” no Twitter pode, de per si, mudar o mundo.

A briga no Egito é grande, vem de longa data e a web é mais uma ferramenta. É de bom tom lembrar que há inúmeros agentes políticos envolvidos, grupos, clérigos, diplomatas, espiões e governos. E estes não deixaram de existir e atuar nas sombras com o advento do Facebook e do Twitter. Os serviços secretos, os estrategistas de bastidores, os ideólogos de teocracias e outros agentes não abandonaram seus movimentos e precisam ser incluídos nesta conta. As peças do xadrez internacional não viraram, de uma hora para outra, apenas seus vizinhos de Farmville.